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03/07/2012



Seminário Indústria e Varejo de Calçados na Francal
Recado do varejo: “Respeitem as estações”

Lojistas confirmam preocupação com a antecipação das coleções e liquidações

Indústria e varejo de calçados iniciaram no último dia 28, em São Paulo, o debate em busca de uma solução para a antecipação das coleções e liquidações, sobre a qual têm opiniões diferentes.

O ponto de partida do diálogo - que deve se prolongar por vários meses e envolver negociação, bom senso, conciliação de interesses e, principalmente, o respeito aos diferentes climas de um país tropical e das exigências do consumidor brasileiro - foi o seminário Antecipação de Coleções + Antecipação de liquidações, realizado durante a Francal.

Organizado pela Associação Brasileira de Lojistas de Artefatos e Calçados (Ablac) e da Associação Brasileira das indústrias de Calçados (Abicalçados), com apoio da Couromoda Feiras Comerciais e Francal Feiras, o evento contou com a presença de mais de 300 profissionais da indústria e do varejo.

O seminário foi aberto pelo presidente da Ablac, Carlos Ajita, e pelo vice-presidente da Abicalçados, Caetano Bianco Neto.

O novo ‘calendário de lançamentos’ opõe os dois segmentos. Enquanto a indústria defende a antecipação, o varejo reclama. Diz que produtos chegam muito antes do período de venda e que, algumas semanas depois, já estão ‘velhos’ e não mais despertam o interesse dos consumidores, precisando ser liquidados. A prática, segundo os lojistas, implica numa redução de cerca de 30% dos preços e na perda de lucratividade.

Cresce consumo no Brasil

Antes de abrir os debates entre indústria e varejo, o Seminário trouxe uma palestra de Marcos Gouvêa de Souza, fundador, sócio sênior e diretor geral da GS&MD - Gouvea de Souza, empresa de consultoria, com foco em marketing de varejo e distribuição.

Um dos maiores especialistas em varejo no Brasil, Marcos Gouvea de Souza, apresentou uma série de fatores que estão favorecendo o consumo no Brasil de calçados e vestuário. O nível de desemprego é um dos menores da história: em junho foi de apenas 5,8%. Na mesma linha, a massa salarial mantém uma escala ascendente nos últimos anos. Entre janeiro e abril deste ano, cresceu 6,1% fazendo aumentar o consumo. A confiança do consumidor também cresce continuadamente desde 2008, assim como o crédito que passou de R$ 77 bilhões em 2001 para US$ 633 bilhões em 2011, um aumento de 722%.

“O volume de crédito disponível é o principal motivo para a expansão do consumo no País”, disse Gouvêa, destacando que, entre 1998 e 2011, a participação do crédito no PIB passou de 25% para 49%, ou seja, quase dobrou. E a expectativa é de continuidade de crescimento. Assim, em 2016, deverá chegar a 80%.

O panorama positivo beneficia o desempenho do varejo de calçados, que cresce muito acima do PIB. Entre janeiro e abril de 2011, o varejo cresceu 9,2%, contra apenas 0,8% do PIB.

Outro fato destacado pelo palestrante foi o crescimento do e-commerce no Brasil. Nos últimos cinco anos chegou a 328%, atualmente representa 2 a 3% das vendas totais do varejo brasileiro. “Para 2012 estima-se R$ 1,6 bi em faturamento só nos setores de moda e confecção. Todos estes fatores estão mudando os hábitos de consumo no Brasil e no mundo. Esse Seminário é só o inicio de um grande debate que indústria e varejo devem ter. A solução precisa ser construída em conjunto, a partir do entendimento entre quem fabrica e quem vende e dos novos hábitos do consumidor”, enfatizou o consultor.
(clique aqui para ler mais sobre a apresentação de Marcos Gouvêa de Souza)


“Respeitem as estações” – esse foi o recado do varejo

Durante o seminário, indústria e varejo tiveram a oportunidade de apresentar e defender seus pontos de vista quanto a antecipação das coleções e por consequência das liquidações.

Confira a opinião de profissionais da indústria e do varejo!

“A agricultura respeita a natureza plantando e colhendo na época certa. Com o varejo não deve ser diferente. As coleções de calçados precisam ser adequadas à época a que se destinam. Não há como vender botas quando o clima exige sapatilhas. A antecipação das coleções gera saldo nas lojas. O que fazer com os produtos ‘velhos” para receber uma coleção nova? A Região Sudeste, onde atuamos, tem estação bem-definida. É preciso respeitar as estações e seguir o exemplo da natureza”.
Manoel Kherlakian
Pontal Calçados, Sâo Paulo
“Cabe ao varejo decidir o que e quando comprar, assim como o consumidor decide onde e quando compra. O lojista deve ter o livre-arbítrio de comprar ou não. No nosso caso, o fator sazonalidade é irrelevante, pois estamos localizados numa região de clima sem grandes alterações.”
Imad Esper
Savan Calçados, Goiânia/GO
“A antecipação das coleções é ordenada pelo mercado, indústria e varejo precisam entender isso e atender as necessidades do consumidor que é efetivamente quem determina o comportamento do mercado. Entender as mudanças de hábitos de compra desse consumidor é fundamental para indústria e varejo chegarem a um ponto em comum”.
Paulo Santana
Zeket Calçados, Igrejinha/RS
“Há um excesso de produtos no mercado interno decorrente do ingresso de empresas que antes voltavam-se à exportação. Essa grande disputa pelo mercado interno, faz a indústria lançar diferentes coleções para a mesma estação. Não há como vender tudo isso. Os fabricantes pressionam e oferecem descontos para desovar os estoque. As lojas, para receber novidades, têm que fazer promoção para estimular a venda, que nem sempre ocorre de acordo com o desejado”.
Raul Viega da Rocha
Radan Calçados, São Leopoldo/RS
“O mercado interno está em transformação beneficiado pelo crescimento da economia que elevará o poder de compra. Um setor primário forte alavanca o comércio e os serviços que vendem mais. É difícil determinar o momento para o lançamento das coleções de verão e inverno, que devem acontecer de acordo com o que o consumidor procura e respeitando os diferentes climas do nosso país. Trabalhamos com lojas de todo o Brasil e precisamos ter produtos e novidades para atender esses diferentes consumidores”.
Roberto Argenta
Calçados Beira Rio, Novo Hamburgo/RS
“As exportações caíram e as empresas não diminuíram a produção. Todas querem colocar seu produto no mercado interno. O resultado é um aumento da oferta de produtos e um consumidor endividado. Esse consumidor se iludiu pelos ganhos salariais, achou que estava rico e comprou o que não precisava. Entre janeiro e maio, 84% de nossas vendas no Nordeste (Esposende) foram de até R$ 100,00. Somente 16% tiveram valores acima disso. O varejo precisa ser criativo para passar por esse momento adverso”.
Lioveral Bacher
Lojas Paquetá, Porto Alegre/RS
“Vareo e indústria devem estar unidos para rentabilizar suas operações. Precisamos adaptar o que lançar e quando lançar. O consumidor é o nosso patrão e temos que acompanhar suas mudanças e desejos. Só conversando que vamos chegar a uma posição equilibrada e boa para ambas as partes”.
Rafael Schefer
West Coast/Cravo & Canela, Ivoti/RS
“Consumidor é rei e compra conforme o comportamento da natureza/clima. Mas o que acontece no sul é diferente do nordeste. Cabe à indústria oferecer produtos adequados a cada mercado e ao varejo decidir o que comprar. Essa equação precisa levar em conta também o ingresso de novos players no varejo multimarcas, que é um processo sem volta.”
Marcelo Paludetto
Democrata Calçados, Franca/SP
“Há uma confusão de lançamentos que interferem no mercado. As coleções de inverno e verão estão relativamente corretas, mas faltam produtos de meia-estação. Sandália não vende em julho e agosto. Bota não vende em fevereiro. As liquidações precisam ser retardadas e os produtos precisam evoluir conforme a estação e não mudar radicalmente de uma para outra, de fechados para abertos ou vice-versa. Temos que aproveitar melhor cada estação.”
Ricardo Kachvartanian
Mundial Calçados, São Paulo/SP
“A solução precisa ser buscada em conjunto, como fizeram os lojistas de São Paulo, que, há alguns anos, tinham o menor mark-up do País e, hoje, já praticam 2,4%. Na Europa, há uma época regulamentada para as liquidações. No Brasil, também pode ser assim, até mesmo porque elas devem levar em conta fatores regionais. Precisamos ter bom sendo e agir com sensibilidade para encontrar uma solução que atende aos diferentes interesses.”
Roberto Barbosa
Ferracini, Franca/SP
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