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28/09/2006

Postura, persistência e agilidade
abrem mercado na Europa

Para as mais de 30 empresas brasileiras que participaram da Micam como expositoras, a feira trouxe bons resultados de vendas, seja para clientes europeus, seja para os demais mercados. Mas, acima de tudo, os contatos estabelecidos em Milão reafirmaram que persiste o interesse pelo estilo brasileiro de calçados. “Mesmo que a moda esteja cada vez mais globalizada, os brasileiros fazem coleções com um toque muito particular, muito sedutor, que não se encontra em nenhum outro lugar”, comentaram os lojistas Maria Rochas Guardiola e Ivan Rosales Blanco, da rede de lojas Felix Rochas, de Bilbao/Espanha.

Buscando seus próprios caminhos

Calçadistas brasileiros já trabalham o mercado europeu há muito anos. As exportações para este mercado vem crescendo rapidamente, graças à uma política de persistência, qualidade de produto, desenvolvimento de design e contínua adaptação às exigências muito específicas do varejo europeu, especialmente o de médio e alto nível.

As vendas para Europa representavam 15,3% do total em 2004 (US$ 281 milhões) e passaram a 25,8% nos primeiros oito meses de 2006, com total de US$ 328,6 milhões).

Os resultados variam de acordo com a estratégia de cada empresa e os investimentos feitos em equipes de vendas, participação em feiras internacionais, acordos de distribuição e a dose de ousadia de cada marca.

Várias são as empresas que têm optado por uma “carreira solo” no mercado europeu, financiando seus próprios investimentos em vendas e promoção. Na recente edição da Micam, várias delas se apresentaram em estandes individuais, tal como a Tradeffort (Fit Mix), a Schutz e a Studio TMLS.

Personalidade e logística

Empresa com 16 anos de atividades e os últimos cinco dedicados também à exportação, a Tradeffort (Fit Mix) desenvolve produtos e faz a logística de comercialização e distribuição, atendendo clientes no Oriente Médio, no Oriente, mercado africano, EUA, Europa e Caribe. Paulo Ricardo Becker, diretor da empresa, diz que descobriu a grande oportunidade de vender calçados brasileiros justamente quanto a moda ficou efetivamente globalizada e, portanto, muito parecida em todos os lugares do mundo. “Existem clientes dispostos a comprar produtos diferentes, e é nisso que estamos apostando”, diz ele.

A Fit Mix trabalha com várias fábricas gaúchas, mas tem sua própria equipe de desenvolvimento, focada em quatro itens que Becker considera fundamentais: comercial, matérias-primas, construção e cabedais. Ter personalidade nas coleções e uma boa logística de vendas e distribuição é absolutamente necessário, completa Becker. As fábricas brasileiras têm uma excelente capacidade produtiva, mas ainda enfrentam muitas dificuldades estruturais, de transporte, financiamento e uma logística interna e externa emperrada. A Fit Mix trabalha com coleções femininas, na faixa de 10 até 50 dólares e entregas em 45 dias (FOB).

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Good value for money

Jeferson Dib, diretor do Studio TMLS há 17 anos divide-se entre as fábricas de calçados do Rio Grande do Sul e seus escritórios em Londres. Desenvolvendo coleções de design avançado (“um misto de italiano e inglês”, segundo sua própria definição), ele atua na faixa de produtos de 35 dólares e atende atualmente cerca de 50 clientes na Europa, Estados Unidos, Austrália e Japão.

Vai fechar o ano de 2006, com cerca de 1,5 milhão de pares vendidos, com crescimento de 15% sobre o ano anterior. Sua proposta ao mercado é a do “good value for money” e sua receita de trabalho é a muito semelhante à da Fit Mix: “é preciso ter um projeto de exportações, acreditar nele, ser eficiente e rápido nas decisões”, define Dib. Para ele, o problema dos brasileiros não é o câmbio e sim a falta de projeto e de postura exportadora. “A concorrência da China nos ensinou que é preciso ser objetivo nos negócios. O Brasil tem a melhor estrutura do mundo para fazer calçados; basta aos nossos empresários, (ou à maioria deles) uma postura mais agressiva, mais empreendedora e nunca concentrada em poucos clientes.

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Somando esforços, dividindo custos

Outra forma de apresentação no mercado mundial – a mais utilizada pelas fábricas brasileiras – é a participação coletiva em feiras internacionais, com apoio financeiro de organismos como a Apex Brasil – Agência de Promoção de Exportações e Investimentos. Através da Abicalçados – Associação Brasileira das Indústrias de Calçados, a Apex Brasil vem oferecendo há vários anos um programa de promoção de exportações, que tem nas feiras especializadas sua parte mais visível.

Na última edição da Micam, o programa da Apex/Abicalçados/ Brazilian Footwear levou 27 empresas, que ocuparam estande conjunto no pavilhão 4. Também aí o caminho da persistência e atualização gerou resultados. “Depois de oito anos viajando pela Europa e investindo na conquista de clientes, esta foi a feira que gerou negócios efetivos”, comentou Wilmar Robinson, diretor de Calçados Siboney. Ele contou com o apoio de dois representantes italianos e o resultado foi a abertura de vendas para o Egito, Grécia, Chipre, Bangcoc, Chile, além dos Estados Unidos.

No estande da Via Uno, importadores de vários países foram atendidos tanto pela equipe brasileira como pelos representantes estabelecidos na Europa. “Agora podemos dizer que estamos colhendo os frutos de mais de quatro anos de investimento”, assinala Jadir Bergonsi, do departamento de exportação da empresa. Ele ensina que a insistência é uma das grandes armas para quem decide apostar no mercado internacional, além de investir muito em linhas específicas para o comprador, principalmente o europeu. Segundo Bergonsi, os embarques para a Europa, ao contrário da América Latina, tiveram crescimento ao longo do ano, porque o mercado tem mais poder de consumo e passou a comprar produtos da marca devido ao assessoramento dos agentes locais.

Neste mesmo sentido, a Vieira & Vieira (Juiz de Fora/MG), fabricante da marca Renne Shoes, vem alterando gradativamente o design das coleções voltadas para o exterior. “O retorno está começando agora, após três anos apostando neste mercado”, disse o diretor Custódio Nepomuceno. Dos 2,5 mil pares/dia produzidos na fábrica mineira, cerca de 50% são exportados, sendo que Israel é o mercado mais forte.
Apostar no diferencial também foi o diferencial de Calçados Bibi. A empresa levou uma coleção inovadora, como o tênis que se transforma em skate, cujo preço médio pode chegar a 80 dólares na loja. Outras novidades foram os modelos de tênis que imitam um carro, acendem faróis e luz de freio, ou que lembra uma espaçonave. “Como o Brasil está perdendo competitividade no segmento de preço médio, temos que nos diferenciar para concorrer no mercado de maior valor agregado”, diz Andrea Kohlrausch, da área de exportação da empresa.

A maioria das cinco empresas brasileiras de calçados masculinos participaram pela primeira vez na Micam, com a Apex e Abicalçados. Moema e João Conrado, da Ghetz Brazilian Footwear (Anatomic Gel) fecharam vendas para a Itália e receberam clientes do Catar, Israel, Istambul e Turquia. No estande da Sapatoterapia, a visitação foi menor do que a esperada, mas mesmo assim foram abertos clientes no Oriente Médio. “Foi nossa primeira participação e sabemos que temos que continuar investindo”, diz Ricardo Tonon, gerente de vendas internacionais. A empresa francana Bettarello acertou parcerias com agentes e distribuidores, enquanto que Calçados Democrata (que participa da feira há 16 anos), apostou na contratação de agentes locais. O diretor Marcelo Paludetto trabalhou na feira ao lado de seus representantes na Holanda, Espanha e Inglaterra e restabeleceu a distribuição para a Noruega. Há apenas cinco ano a Democrata passou a investir em vendas com marca própria e hoje atinge países como Espanha, Holanda, Inglaterra, Grécia e Turquia, além da América Latina.

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